Esta coberta com mangas parece uma boa saída para aqueles dias frios em que você não sabe se aquece os braços ou se continua a leitura correndo o risco de congelar:
Estará à venda em breve. Confira mais detalhes. (dica da Talita)
Quer começar a escrever? Quer aperfeiçoar a sua escrita?
Pois bem, na próxima semana começa a oficina de textos literários no Solar do Rosário, em Curitiba. Cursei a oficina durante 2009 e gostei muito, principalmente pelas leituras que fizemos e discutimos durante as sessões.
Para quem tiver interesse:
Produção de textos literários. Leitura e interpretação de textos selecionados. Apresentação e discussão da teoria literária e da estilística (inclui comentários sobre o Novo Acordo Ortográfico e temas de linguística).
“Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.
Dichten = condensare.
Começo com a poesia porque é a mais condensada forma de expressão verbal. Basil Bunting, ao folhear um dicionário alemão-italiano, descobriu que a idéia de poesia como concentração é quase tão velha como a língua germânica. Dichten é o verbo alemão correspondente ao substantivo Dichtung que significa poesia e o lexicógrafo traduziu-o pelo verbo italiano que significa condensar.
Os historiadores consideram que as grandes culturas semíticas originam-se do deserto arábico, e que elas estão portanto no começo de tudo: o termo beduínos vem de BADW, que significa exatamente começo. A única arte que os nômades podem desenvolver é de fato a língua — que se torna assim o que Heidegger disse: “a morada do ser”. A frase do filósofo alemão é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se BAYT (literalmente casa) e palavra diz-se MOUFRAD (de FARD, ou seja, indivíduo). Assim, verso poético, diz-se BAYTAL AL CHI’IR e a tenda dos beduínos chama-se BAYTAL CHA’R (a casa do pêlo). Constata-se claramente a semelhança, a equivalência e a simbiose entre o indivíduo, o meio ambiente e a língua. São argumentos que se referem ao determinismo do meio ambiente; mas, na verdade, foram razões religiosas que marcaram a língua aramaica e, em conseqüência, o árabe. No aramaico, língua mãe das línguas semíticas faladas (etíope, fenício, etc) e litúrgicas (siríaco, hebreu, etc.), a palavra poesia, CHI’IR, designa também o canto. Canto e poesia são inseparáveis e têm uma função religiosa. Cantava-se para os deuses, daí o caráter sagrado de CHI’IR.
Como se não bastasse, hoje faleceu o escritor norte-americano J. D. Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio. Salinger morreu com 91 anos, de causas naturais, em sua casa em New Hampshire. Em homenagem ao autor a revista The New Yorker liberou para leitura (em inglês) os 13 contos de Salinger publicados pela revista entre os anos de 1946 e 1965, entre eles o excelente A Perfect Day for Banana Fish.
E desviando um pouco da literatura, uma terceira perda: a Miramax anunciou hoje que está fechando as portas. Entre os sucessos lançados pelo estúdio estão O Balconista (Clerks), Pulp Fiction e Cães de Aluguel (Reservoir Dogs).
No 12º capítulo de Quase a Mesma Coisa – Experiências de Tradução, Umberto Eco comenta a reelaboração radical: quando um tradutor toma tantas licenças ao traduzir um texto que o resultado final acaba sendo uma reelaboração e perde a característica de reversibilidade. Se revertermos a tradução no Google Translate, por exemplo, ficará difícil (ou impossível) perceber o texto original.
Neste capítulo ele mostra alguns trechos de Finnegan’s Wake traduzido para o italiano e para o francês pelo próprio James Joyce. O livro é famoso por conter o máximo do experimentalismo de Joyce. “Para passar a sensação do fluir do Rio Liffey, o livro contém, variadamente mascarados, cerca de oitocentos nomes de rios”.
O Rio Liffey, em Dublin
Ao questionar os critérios de tradução escolhidos por Joyce, Eco cita um trecho do livro:
Tell us in franca langua. And call a spate a spate. Did they never sharee you ebro at skol, you antiabecedarian? It’s just the same as if I was to go par examplum now in conservacy’s cause of telekinesis and proxenete you. For coxyt sake and is that what she is?
E comenta:
Spate remete a spade e to call a spade a spade corresponde ao nosso dire pane al pane. Mas spate remete também à idéia de rio (a spate of words é um rio de palavras). Sharee junta share e o rio Shari, ebro junta hebrew e o Ebro, skol junta school e o rio Skollis. Saltando outras referências, for coxyt sake traz à mente não apenas o rio infernal Cocito, como for God’s sake (e portanto uma invocação, no contexto, blasfema).
Antes de prosseguir com a análise das traduções, ele deixa uma nota de rodapé:
Como Joyce nunca dizia uma coisa só, for coxyt sake remete também ao Cox River, e um falante inglês sugeriu-me também uma alusão obscena, dado que for coxyt sake soa bastante parecido com for coxiti’s ache, onde coxitis é uma espécie de luxação do quadril e poderia, então, sugerir uma pain in the ass. Atenho-me à intuição do falante e não enfeitarei mais.
Simplesmente genial! Não consigo descrever de outra forma. Se eu conseguir ler Ulisses — e pretendo fazer isso antes do Bloomsday deste ano — pode ser que um dia eu crie coragem pra tentar me afogar no Finnegan’s Wake.
Xavier de Maistre foi uma das influências de Machado de Assis. Ou ainda é, já que o autor morre, mas a obra permanece. Acabei de ler Viagem à Roda do Meu Quarto e por acaso encontrei um vídeo do Entrelinhas sobre o autor e este relato dos 42 dias em que o personagem viaja dentro do seu próprio quarto:
A matéria do Entrelinhas cita o momento em que o narrador começa a divagar sobre a dualidade que o ser humano carrega, a divisão entre alma e besta. Isto acontece logo no sexto capítulo do livro e o primeiro exemplo desta teoria explica o que acontece durante um momento que todo leitor ou leitora já enfrentou:
Quando estais lendo um livro, caro senhor, e uma idéia mais agradável entra de repente em vossa imaginação, a vossa alma imediatamente se deixa agarrar e esquece o livro, enquanto os olhos vão seguindo maquinalmente as palavras e as linhas; acabais a página sem compreendê-la e sem vos lembrardes do que lestes. — Isto vem do fato de que a vossa alma, tendo ordenado à companheira que continuasse a leitura, não a advertiu da ligeira falta que ia fazer; de modo que a outra continuava a leitura que a vossa alma não mais ouvia.
Viagem à Roda do Meu Quarto; Xavier de Maistre; Estação Liberdade, pg. 13.
Tradução de Marques Rebelo.
Já terminei a Viagem e agora parto para a Expedição Noturna à Roda do Meu Quarto, a continuação publicada 31 anos depois do primeiro livro. Ainda em tempo, uma nova tradução lançada recentemente pela editora Hedra e a atualização já começa pelo título: Viagem Em Volta do Meu Quarto.
W. B. Yeats: a partir de hoje, em domínio público.
Hoje é dia de comemorar. O primeiro de janeiro, além do início de um novo ano, representa também o dia em que vencem os direitos autorais de muitas obras. A partir de hoje os trabalhos do pai da psicanálise, Sigmund Freud, caem em domínio público. Além dele, os poemas e peças do irlandês William B. Yeats também passam a ser de todos nós. Um conto de Yeats pode ser encontrado no já comentado Contos Irlandeses do Início do Séc. XX, uma compilação organizada e traduzida por Luci Collin.
A lista completa dos nomes que entram em domínio público a partir de hoje pode ser consultada no Public Domain Works.
Atualização: A Biblioteca Nacional da Irlanda preparou uma versão virtual da exposição que está mantendo sobre a vida e o trabalho de W. B. Yeats. Vale a pena conferir!
Lendo a coluna Ecco! da revista Entre Livros #3, conheci o Zvi Har’El’s Jules Verne Collection, um website dedicado ao escritor francês Júlio Verne e mantido pelo Dr. Zvir Har’El desde novembro de 1995. No site é possível encontrar notícias, agendas de celebrações, bibliografia, antologia de ensaios, fórum para discussões vernianas, imagens de selos dedicados ao escritor, ilustrações das edições originais francesas e até uma lista das traduções de Verne para o hebraico. O senhor Zvi é um israelense que mantém o site em homenagem ao filho, que faleceu quando tinha 19 anos.
A seção que mais chama a atenção, indicada na revista por ninguém menos que Umberto Eco, é a livraria virtual, que contém textos integrais de Verne em diversas línguas. Infelizmente a ausência da bandeira de algum país lusófono indica que nenhum dos textos está traduzido para o português. Porém a seção com as perguntas mais freqüentes, o FAQ, já está traduzido para a nossa língua.
A editora Cosac Naify, famosa por suas edições de excelente qualidade, disponibilizará para download, durante alguns meses, o livro Flores, do escritor mexicano Mario Bellatin.
Formado por narrativas curtas – todas com nomes de flores –, o livro narra fragmentos de vida de personagens solitários e ambíguos, como um cientista que descobre um fármaco causador de formações físicas e um escritor que pesquisa formas incomuns de sexualidade. As tramas possuem uma violência implícita, num mundo em que a anormalidade é a regra.
Para baixar o livro em formato PDF, acesse o site da editora.
Bellatin participou da FLIP deste ano, dividindo palco com o escritor Cristovão Tezza, que acaba de faturar mais um prêmio com O Filho Eterno. Desta vez Tezza receberá um prêmio no valor de R$ 100 mil na 13ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. A notícia completa pode ser lida no site da Folha.