logorréia:
profusão de frases sem sentido e/ou inúteis; compulsão para falar, loquacidade exagerada que se nota em determinados casos de neurose e psicose ...

Traduzir Kerouac

Publicado: April 9th, 2010 | Autor: logorreia | Categorias: Idiomas, Literatura Estrangeira, Tradução | Tags: , | Nenhum Comentário »

Guilherme da Silva Braga comenta, no blog da L&PM, sobre a aventura de traduzir Jack Kerouac:

Um dos aspectos mais gritantes, no caso específico de Kerouac, é o som e o ritmo da prosa original, dotada de uma naturalidade incrível, que a faz soar quase como se fosse de fato um texto falado – o que às vezes de fato acontece, como por exemplo no enorme capítulo de Visões de Cody intitulado Frisco: a fita. Assim, um dos grandes desafios de traduzir Kerouac é manter essa espontaneidade, essa vivacidade da língua falada no texto escrito – algo que não estamos acostumados a ver. Muito do que pode parecer desleixo e improviso destrambelhado quando escrito na página soa exatamente como falaríamos no dia-a-dia se lido em voz alta com a entonação adequada (verdade que em certos casos soa tal como falaríamos depois de tomar um porre, mas ainda assim o efeito de verossimilhança permanece).

Vale a pena ler o artigo todo.


Espalhe a palavra!

Publicado: April 6th, 2010 | Autor: logorreia | Categorias: Curiosidade, Idiomas | Tags: , , | Nenhum Comentário »

Compreensão

Compreensão

Justin Sirois, da Narrow House, criou uma campanha muito bacana: ensinar ao mundo uma única palavra árabe: فِهْم.

A palavra — que quer dizer compreensão — é pronunciada fihm. Note que o h não é mudo e deve ser pronunciado como na palavra house.

Acesse o site oficial da campanha.


Enriquecendo o vocabulário

Publicado: March 19th, 2010 | Autor: logorreia | Categorias: Curiosidade, Idiomas | Tags: , , , , , | Nenhum Comentário »

Hoje aprendi três palavras curiosas:

  1. Sabe quando você escuta mal uma frase e acaba entendendo outra coisa? Por exemplo, alguém fala “Já podeis” e você entende “Japonês”. Em inglês esta confusão se chama mondergreen.
  2. Já o soramimi é um pouco diferente, o problema aqui é quando você escuta uma música numa língua estrangeira e associa foneticamente uma frase da música com uma frase do idioma materno. O Youtube está cheio de exemplos de soramimis. Vai de Carmina Burana ao tema de abertura de Jaspion.
  3. E para terminar, sabe como se chama o espaço que existe entre as duas sobrancelhas? Pois então, é glabela. E o equivalente em inglês é ophyron.

Aliás, aproveito o post para divulgar o recém-criado Palavroso, um tumblelog para listarmos as palavras incomuns e curiosas da língua portuguesa. Colabore! E caso prefira as palavras curiosas do inglês, uma ótima opção é o Word Journal. No momento eu estou fundindo a cuca para descobrir o equivalente em português para purlicue. Alguém sabe?


Etimologia de poesia em árabe e alemão

Publicado: February 8th, 2010 | Autor: logorreia | Categorias: Citação, Curiosidade, Idiomas, Leitura, Poesia | Tags: , , , , | Nenhum Comentário »

Do ABC da Literatura, de Ezra Pound:

“Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.

Dichten = condensare.

Começo com a poesia porque é a mais condensada forma de expressão verbal. Basil Bunting, ao folhear um dicionário alemão-italiano, descobriu que a idéia de poesia como concentração é quase tão velha como a língua germânica. Dichten é o verbo alemão correspondente ao substantivo Dichtung que significa poesia e o lexicógrafo traduziu-o pelo verbo italiano que significa condensar.

D’A Poesia Árabe Moderna e o Brasil, de Slimane Zeghidour:

Os historiadores consideram que as grandes culturas semíticas originam-se do deserto arábico, e que elas estão portanto no começo de tudo: o termo beduínos vem de BADW, que significa exatamente começo. A única arte que os nômades podem desenvolver é de fato a língua — que se torna assim o que Heidegger disse: “a morada do ser”. A frase do filósofo alemão é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se BAYT (literalmente casa) e palavra diz-se MOUFRAD (de FARD, ou seja, indivíduo). Assim, verso poético, diz-se BAYTAL AL CHI’IR e a tenda dos beduínos chama-se BAYTAL CHA’R (a casa do pêlo). Constata-se claramente a semelhança, a equivalência e a simbiose entre o indivíduo, o meio ambiente e a língua. São argumentos que se referem ao determinismo do meio ambiente; mas, na verdade, foram razões religiosas que marcaram a língua aramaica e, em conseqüência, o árabe. No aramaico, língua mãe das línguas semíticas faladas (etíope, fenício, etc) e litúrgicas (siríaco, hebreu, etc.), a palavra poesia, CHI’IR, designa também o canto. Canto e poesia são inseparáveis e têm uma função religiosa. Cantava-se para os deuses, daí o caráter sagrado de CHI’IR.


Os rios de Joyce

Publicado: January 18th, 2010 | Autor: logorreia | Categorias: Curiosidade, Idiomas, Leitura, Literatura Estrangeira | Tags: , , | 3 Comentários »

No 12º capítulo de Quase a Mesma Coisa – Experiências de Tradução, Umberto Eco comenta a reelaboração radical: quando um tradutor toma tantas licenças ao traduzir um texto que o resultado final acaba sendo uma reelaboração e perde a característica de reversibilidade. Se revertermos a tradução no Google Translate, por exemplo, ficará difícil (ou impossível) perceber o texto original.

Neste capítulo ele mostra alguns trechos de Finnegan’s Wake traduzido para o italiano e para o francês pelo próprio James Joyce. O livro é famoso por conter o máximo do experimentalismo de Joyce. “Para passar a sensação do fluir do Rio Liffey, o livro contém, variadamente mascarados, cerca de oitocentos nomes de rios”.

O Rio Liffey, em Dublin

O Rio Liffey, em Dublin

Ao questionar os critérios de tradução escolhidos por Joyce, Eco cita um trecho do livro:

Tell us in franca langua. And call a spate a spate. Did they never sharee you ebro at skol, you antiabecedarian? It’s just the same as if I was to go par examplum now in conservacy’s cause of telekinesis and proxenete you. For coxyt sake and is that what she is?

E comenta:

Spate remete a spade e to call a spade a spade corresponde ao nosso dire pane al pane. Mas spate remete também à idéia de rio (a spate of words é um rio de palavras). Sharee junta share e o rio Shari, ebro junta hebrew e o Ebro, skol junta school e o rio Skollis. Saltando outras referências, for coxyt sake traz à mente não apenas o rio infernal Cocito, como for God’s sake (e portanto uma invocação, no contexto, blasfema).

Antes de prosseguir com a análise das traduções, ele deixa uma nota de rodapé:

Como Joyce nunca dizia uma coisa só, for coxyt sake remete também ao Cox River, e um falante inglês sugeriu-me também uma alusão obscena, dado que for coxyt sake soa bastante parecido com for coxiti’s ache, onde coxitis é uma espécie de luxação do quadril e poderia, então, sugerir uma pain in the ass. Atenho-me à intuição do falante e não enfeitarei mais.

Simplesmente genial! Não consigo descrever de outra forma. Se eu conseguir ler Ulisses — e pretendo fazer isso antes do Bloomsday deste ano — pode ser que um dia eu crie coragem pra tentar me afogar no Finnegan’s Wake.


Miguel S. Tavares, o acordo ortográfico e eu

Publicado: September 21st, 2009 | Autor: logorreia | Categorias: Citação, Entrevista, Idiomas, Leitura | Tags: , , , , , , , , , | 1 Comentário »

Através do Blogtailors fiquei sabendo de uma entrevista que o Miguel Souza Tavares concedeu ao Público. Longe de querer tomar partido a favor ou contra o acordo ortográfico e, principalmente, longe de qualquer possível sentimento patriótico, tive vontade de comentar dois pontos que soaram ambíguos para mim:

Sousa Tavares duvida que os países africanos de Língua Portuguesa cumpram o acordo. “Vão começar a rejeitar o Português se nós os obrigarmos a seguir estritamente uma gramática que não lhes faz sentido nem ao ouvido, nem na escrita”.

Se Tavares estiver falando do acordo ortográfico, acho que se expressou mal. O acordo é ortográfico, e não gramatical. Mas é possível interpretar de outra forma a fala de Tavares, como se ele estivesse condenando algumas regras gramaticais e, neste caso, eu só poderia concordar com o escritor. Pelo menos aqui no Brasil a gramática nem sempre condiz com o uso que fazemos do português.

Mesmo com todo o desrespeito pela regra que proíbe a próclise no início de frases, falar Te amo! é muito natural para nós. Nunca conheci um brasileiro ou uma brasileira que  tenha virado para a pessoa amada e dito Amo-te! E arrisco a dizer que uma parcela muito pequena da população escreveria Amo-te! em um cartão ou carta para o amor da vida dela.

“Acho um projecto idiota, e pode ser prejudicial em muitos países. Querem unificar o português em todo o mundo falante de língua portuguesa. Não vai ser em Portugal nem no Brasil porque temos 500 anos de trabalho e a nossa língua efectiva, mas em Angola apenas dez por cento fala bem português, o resto não fala“, argumenta.

Eu gostaria muito de saber a fonte desta informação que o Tavares cita. A Wikipedia diz que em Angola, 60% dos 12,5 milhões de habitantes falam o português como língua principal. Por experiência própria eu digo que, nas cinco semanas que passei em Luanda, não encontrei uma viva alma que não falasse português. Foi até o contrário, eu estava interessado em saber alguma coisa sobre as línguas nativas das tribos e pouquíssimos ainda falavam aqueles idiomas. Só consegui aprender algumas palavrinhas.

De qualquer forma, se o jornalista transcreveu fielmente a frase do Tavares, existem mais problemas. O que é falar bem o português? Como se define isso? O “resto” não fala português ou fala mal? Com base em que critérios podemos dizer se fulano fala bem ou mal a língua nativa dele, que ele cresceu falando? Se isto foi mesmo o que o escritor disse, eu até recomendaria a leitura do livro Preconceito Lingüístico, escrito pelo lingüista Marcos Bagno e que a esta altura já deve ter ultrapassado a 49ª edição que tenho em mãos.

E pra finalizar, digo que para mim o trema continua existindo e que só deixarei de usá-lo depois de 2012, quando o acordo passa a ser “obrigatório”.


Sator arepo tenet opera rotas

Publicado: May 20th, 2009 | Autor: logorreia | Categorias: Curiosidade, Idiomas, Literatura Estrangeira | Tags: , , | Nenhum Comentário »

Lendo sobre palíndromos na internet, encontrei este que é bastante curioso: Sator arepo tenet opera rotas. A frase, em latim, foi traduzida no site como Sator [a man's name] holds the handles of the plow in plowing. Em português ficaria Sator segura as guias do arado ao arar. Na Wikipedia a tradução é diferente:

Sator – semeador
Arepo – nome próprio
Tenet – ele segura
Opera – trabalha, esforça, cuida
Rotas – rodas

Duas possíveis traduções, de acordo com o artigo, são: O semeador Arepo segura as rodas com esforço e O semeador Arepo guia com suas mãos (trabalha) o arado (rodas).

Um palíndromo é uma frase que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda. O interessante deste palíndromo é que, além disso, as primeiras letras de cada palavra formam a primeira palavra, as segundas letras de cada palavra formam a segunda palavra, e assim vai.

Desta forma, organizado em um quadrado, é também possível ler a mesma frase verticalmente. Este palíndromo é mundialmente conhecido como o Quadrado de Sator:

Quadrado de Sator

Quadrado de Sator

O registro mais antigo deste palíndromo foi encontrado nas ruínas de Herculano, cidade soterrada sobre as cinzas do Monte Vesúvio no ano 79.

Como bem notado pelo Caio, o Quadrado de Sator também é associado ao cristianismo, à numerologia e à magia, mas pelo bem da sanidade pública, prefiro ressaltar o palíndromo apenas pela sua curiosidade lingüística.

Isso me lembra também uma lição que envolve o soneto 129 de Shakespeare, que foi apresentado e explicado esses dias em uma das aulas da Oficina de Textos Literários que estou cursando:

The expense of spirit in a waste of shame
Is lust in action: and till action, lust
Is perjured, murderous, bloody, full of blame,
Savage, extreme, rude, cruel, not to trust;
Enjoyed no sooner but despised straight;
Past reason hunted; and no sooner had,
Past reason hated, as a swallowed bait,
On purpose laid to make the taker mad.
Mad in pursuit and in possession so;
Had, having, and in quest to have extreme;
A bliss in proof, and proved, a very woe;
Before, a joy proposed; behind a dream.
All this the world well knows; yet none knows well
To shun the heaven that leads men to this hell.

Roman Jakobson notou que no primeiro verso do soneto, as palavras shame, expense e spirit formam a pronúncia do nome Shakespeare. O pensador russo também percebeu que se trocarmos well por Will (diminutivo de Willian) nos últimos dois versos conseguimos uma nova leitura do soneto.

Moral da história: palíndromos e anagramas são para doidões!