“Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.
Dichten = condensare.
Começo com a poesia porque é a mais condensada forma de expressão verbal. Basil Bunting, ao folhear um dicionário alemão-italiano, descobriu que a idéia de poesia como concentração é quase tão velha como a língua germânica. Dichten é o verbo alemão correspondente ao substantivo Dichtung que significa poesia e o lexicógrafo traduziu-o pelo verbo italiano que significa condensar.
Os historiadores consideram que as grandes culturas semíticas originam-se do deserto arábico, e que elas estão portanto no começo de tudo: o termo beduínos vem de BADW, que significa exatamente começo. A única arte que os nômades podem desenvolver é de fato a língua — que se torna assim o que Heidegger disse: “a morada do ser”. A frase do filósofo alemão é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se BAYT (literalmente casa) e palavra diz-se MOUFRAD (de FARD, ou seja, indivíduo). Assim, verso poético, diz-se BAYTAL AL CHI’IR e a tenda dos beduínos chama-se BAYTAL CHA’R (a casa do pêlo). Constata-se claramente a semelhança, a equivalência e a simbiose entre o indivíduo, o meio ambiente e a língua. São argumentos que se referem ao determinismo do meio ambiente; mas, na verdade, foram razões religiosas que marcaram a língua aramaica e, em conseqüência, o árabe. No aramaico, língua mãe das línguas semíticas faladas (etíope, fenício, etc) e litúrgicas (siríaco, hebreu, etc.), a palavra poesia, CHI’IR, designa também o canto. Canto e poesia são inseparáveis e têm uma função religiosa. Cantava-se para os deuses, daí o caráter sagrado de CHI’IR.
Xavier de Maistre foi uma das influências de Machado de Assis. Ou ainda é, já que o autor morre, mas a obra permanece. Acabei de ler Viagem à Roda do Meu Quarto e por acaso encontrei um vídeo do Entrelinhas sobre o autor e este relato dos 42 dias em que o personagem viaja dentro do seu próprio quarto:
A matéria do Entrelinhas cita o momento em que o narrador começa a divagar sobre a dualidade que o ser humano carrega, a divisão entre alma e besta. Isto acontece logo no sexto capítulo do livro e o primeiro exemplo desta teoria explica o que acontece durante um momento que todo leitor ou leitora já enfrentou:
Quando estais lendo um livro, caro senhor, e uma idéia mais agradável entra de repente em vossa imaginação, a vossa alma imediatamente se deixa agarrar e esquece o livro, enquanto os olhos vão seguindo maquinalmente as palavras e as linhas; acabais a página sem compreendê-la e sem vos lembrardes do que lestes. — Isto vem do fato de que a vossa alma, tendo ordenado à companheira que continuasse a leitura, não a advertiu da ligeira falta que ia fazer; de modo que a outra continuava a leitura que a vossa alma não mais ouvia.
Viagem à Roda do Meu Quarto; Xavier de Maistre; Estação Liberdade, pg. 13.
Tradução de Marques Rebelo.
Já terminei a Viagem e agora parto para a Expedição Noturna à Roda do Meu Quarto, a continuação publicada 31 anos depois do primeiro livro. Ainda em tempo, uma nova tradução lançada recentemente pela editora Hedra e a atualização já começa pelo título: Viagem Em Volta do Meu Quarto.
Através do Blogtailors fiquei sabendo de uma entrevista que o Miguel Souza Tavares concedeu ao Público. Longe de querer tomar partido a favor ou contra o acordo ortográfico e, principalmente, longe de qualquer possível sentimento patriótico, tive vontade de comentar dois pontos que soaram ambíguos para mim:
Sousa Tavares duvida que os países africanos de Língua Portuguesa cumpram o acordo. “Vão começar a rejeitar o Português se nós os obrigarmos a seguir estritamente uma gramática que não lhes faz sentido nem ao ouvido, nem na escrita”.
Se Tavares estiver falando do acordo ortográfico, acho que se expressou mal. O acordo é ortográfico, e não gramatical. Mas é possível interpretar de outra forma a fala de Tavares, como se ele estivesse condenando algumas regras gramaticais e, neste caso, eu só poderia concordar com o escritor. Pelo menos aqui no Brasil a gramática nem sempre condiz com o uso que fazemos do português.
Mesmo com todo o desrespeito pela regra que proíbe a próclise no início de frases, falar Te amo! é muito natural para nós. Nunca conheci um brasileiro ou uma brasileira que tenha virado para a pessoa amada e dito Amo-te! E arrisco a dizer que uma parcela muito pequena da população escreveria Amo-te! em um cartão ou carta para o amor da vida dela.
“Acho um projecto idiota, e pode ser prejudicial em muitos países. Querem unificar o português em todo o mundo falante de língua portuguesa. Não vai ser em Portugal nem no Brasil porque temos 500 anos de trabalho e a nossa língua efectiva, mas em Angola apenas dez por cento fala bem português, o resto não fala“, argumenta.
Eu gostaria muito de saber a fonte desta informação que o Tavares cita. A Wikipedia diz que em Angola, 60% dos 12,5 milhões de habitantes falam o português como língua principal. Por experiência própria eu digo que, nas cinco semanas que passei em Luanda, não encontrei uma viva alma que não falasse português. Foi até o contrário, eu estava interessado em saber alguma coisa sobre as línguas nativas das tribos e pouquíssimos ainda falavam aqueles idiomas. Só consegui aprender algumas palavrinhas.
De qualquer forma, se o jornalista transcreveu fielmente a frase do Tavares, existem mais problemas. O que é falar bem o português? Como se define isso? O “resto” não fala português ou fala mal? Com base em que critérios podemos dizer se fulano fala bem ou mal a língua nativa dele, que ele cresceu falando? Se isto foi mesmo o que o escritor disse, eu até recomendaria a leitura do livro Preconceito Lingüístico, escrito pelo lingüista Marcos Bagno e que a esta altura já deve ter ultrapassado a 49ª edição que tenho em mãos.
E pra finalizar, digo que para mim o trema continua existindo e que só deixarei de usá-lo depois de 2012, quando o acordo passa a ser “obrigatório”.
Do curioso e grande expurgo que o padre-cura e o barbeiro fizeram na livraria do nosso engenhoso fidalgo:
— Assim será — respondeu o barbeiro —; mas que se há de fazer destes livrecos que ainda aqui estão?
— Estes — disse o cura — não hão de ser de cavalaria, mas sim de poesia.
E, abrindo um, viu que era a Diana de Jorge de Montemayor, e disse, crendo que todos os mais eram do mesmo gênero:
— Estes não merecem ser queimados como todos os mais, porque não fazem, nem farão, os danos que os de cavalaria têm feito; são obras de entretenimento, sem prejuízo de terceiro.
— Ai, senhor! — disse a sobrinha. — Bem os pode Vossa Mercê mandar queimar como aos outros, porque não admiraria que, depois de curado o senhor meu tio da mania dos cavaleiros, lendo agora estes se lhe metesse em cabeça fazer-se pastor, e andar-se pelos bosques e prados, cantando e tangendo; e pior fora ainda o perigo de se fazer poeta, que, segundo dizem, é enfermidade incurável e pegadiça.
O Bloomsday é, de acordo com a Wikipedia, o único feriado do mundo dedicado a um livro (com exceção da Bíblia). O livro em questão é o famoso Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, e o nome do feriado vem do personagem principal deste livro, Leopold Bloom. A história contada nas quase mil páginas de Ulisses se passa toda em um único dia, 16 de junho de 1904. Por isso, na Irlanda e em outros lugares do mundo, o dia 16 de junho é celebrado pelos leitores de Joyce.
Atores celebrando o Bloomsday em frente ao pub Davy Byrnes (Dublin), citado no livro
Em Dublin a festa é grande. Tem leitura de trechos do livro pelas ruas da cidade, pessoas vestidas como os personagens e um passeio recriando o trajeto feito por Bloom ao longo da história. No Brasil as comemorações são mais tímidas, mas também convidativas. São Paulo costuma ter uma programação recheada para os fãs de Joyce e este ano não será diferente. Pesquisando na internet descobri que outra cidade brasileira que adora celebrar o dia de Bloom é Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde a data é comemorada desde 1994.
Em Curitiba a data é comemorada desde 2000. Em 2006 teve uma programação variada, que incluía leituras, shows e palestras. Ano passado (2008) as Livrarias Curitiba convidaram o professor Caetano Waldrigues Galindo, da UFPR, para realizar uma palestra sobre Ulisses e, neste ano, quem comanda o Bloomsday na capital paranaense é a escritora Luci Collin, com a palestra “Irlanda de Bloom, Irlanda hoje”. O evento acontecerá às 19:30h, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação.
Mais uma vez eu vou ao Bloomsday sem ter lido Ulisses. Para perceber a evolução do estilo literário de Joyce, estou seguindo a ordem de publicação dos três principais livros dele: Dubliners (1914), A Portrait of the Artist as a Young Man (1916) e Ulysses (1922). Dubliners (publicado no Brasil como Dublinenses, é composto por 15 contos, com destaque para Os mortos, que assim como Ulisses, teve adaptação para o cinema.
Um Retrato do Artista Quando Jovem (A Portrait of the Artist as a Young Man) é um romance autobiográfico onde Joyce recria o seu trajeto de criança, em um ambiente carregado de dogmas religiosos e políticos, até a fase adulta, onde se torna um artista de pensamento independente. Terminei de ler este livro este mês e o momento em que o jovem Stephen Dedalus, alterego de Joyce, decide abandonar suas amarras e deveres sociais é, no mínimo, inspirador:
I will not serve that in which I no longer believe, wether it call itself my home, my fatherland, or my church: and I will try to express myself in some mode of life or art as freely as I can and as wholly as I can, using for my defence the only arms I allow myself to use – silence, exile, and cunning.
Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.
Aproveitando a deixa, eu não recomendo ler esta tradução sem um guia de leitura por perto. Apesar de eu discordar do tradutor em várias escolhas (a começar pela remoção do artigo indefinido do título), o que mais me incomodou foi a ausência de notas explicativas ao longo do texto. Como comparação, o texto original publicado pela Wordsworth, que fui lendo em paralelo com a versão em português, tem 526 notas sobre o contexto político e cultural da Irlanda, além de esclarecimentos de citações e trechos em latim que aparecem na história.
E já que eu não vou conseguir ler Ulisses antes do próximo Bloomsday, estou aproveitando o momento para ler Contos Irlandeses do Início do Século XX, volume de contos organizado e traduzido por Luci Collin, a palestrante do Bloomsday curitibano deste ano. Mas se você não fizer questão de muito detalhe, pode ler Ulysses for Dummies, uma versão divertida do livro feita com GIFs animados.
Lendo The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio), de J. D. Salinger, encontrei no terceiro capítulo uma boa definição sobre a sensação de ler um bom livro:
What really knocks me out is a book that, when you’re all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn’t happen much, though.
Em uma tradução rápida para o português:
O que realmente me impressiona é um livro que, quando você termina de ler, você quer que o autor que escreveu aquele livro seja um grande amigo seu e que você possa ligar para ele quando você bem entender. Isto não acontece muito, porém.