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profusão de frases sem sentido e/ou inúteis; compulsão para falar, loquacidade exagerada que se nota em determinados casos de neurose e psicose ...

Os rios de Joyce

Publicado: January 18th, 2010 | Autor: logorreia | Categorias: Curiosidade, Idiomas, Leitura, Literatura Estrangeira | Tags: , , | 3 Comentários »

No 12º capítulo de Quase a Mesma Coisa – Experiências de Tradução, Umberto Eco comenta a reelaboração radical: quando um tradutor toma tantas licenças ao traduzir um texto que o resultado final acaba sendo uma reelaboração e perde a característica de reversibilidade. Se revertermos a tradução no Google Translate, por exemplo, ficará difícil (ou impossível) perceber o texto original.

Neste capítulo ele mostra alguns trechos de Finnegan’s Wake traduzido para o italiano e para o francês pelo próprio James Joyce. O livro é famoso por conter o máximo do experimentalismo de Joyce. “Para passar a sensação do fluir do Rio Liffey, o livro contém, variadamente mascarados, cerca de oitocentos nomes de rios”.

O Rio Liffey, em Dublin

O Rio Liffey, em Dublin

Ao questionar os critérios de tradução escolhidos por Joyce, Eco cita um trecho do livro:

Tell us in franca langua. And call a spate a spate. Did they never sharee you ebro at skol, you antiabecedarian? It’s just the same as if I was to go par examplum now in conservacy’s cause of telekinesis and proxenete you. For coxyt sake and is that what she is?

E comenta:

Spate remete a spade e to call a spade a spade corresponde ao nosso dire pane al pane. Mas spate remete também à idéia de rio (a spate of words é um rio de palavras). Sharee junta share e o rio Shari, ebro junta hebrew e o Ebro, skol junta school e o rio Skollis. Saltando outras referências, for coxyt sake traz à mente não apenas o rio infernal Cocito, como for God’s sake (e portanto uma invocação, no contexto, blasfema).

Antes de prosseguir com a análise das traduções, ele deixa uma nota de rodapé:

Como Joyce nunca dizia uma coisa só, for coxyt sake remete também ao Cox River, e um falante inglês sugeriu-me também uma alusão obscena, dado que for coxyt sake soa bastante parecido com for coxiti’s ache, onde coxitis é uma espécie de luxação do quadril e poderia, então, sugerir uma pain in the ass. Atenho-me à intuição do falante e não enfeitarei mais.

Simplesmente genial! Não consigo descrever de outra forma. Se eu conseguir ler Ulisses — e pretendo fazer isso antes do Bloomsday deste ano — pode ser que um dia eu crie coragem pra tentar me afogar no Finnegan’s Wake.


3 Comentários em “Os rios de Joyce”

  1. 1 caio1982 said at 4:31 pm on January 18th, 2010:

    Do mal. Um dia eu serei macho de ler isso (e achar graça) :-)

  2. 2 Ivan Justen Santana said at 4:29 pm on February 22nd, 2010:

    (como quem joga uma isca aos que detestam implicâncias com detalhes:)

    Felipe:

    o título do livro mais fundamentalmente radical (de raiz), revolucionário e complexo de James Joyce é

    Finnegans Wake

    sem o apóstrofo (que marca um antediluviano caso genitivo, sobrevivente no inglês até hoje), pois assim sublinham-se mais ambiguidades (fim x de novo // velório x despertar // o velório [ou rastro] de Finnegan x os Finnegans velam [ou acordam ou 'se ligam'] etc etc et coetera…..)

    Observe-se ainda que o nome Finnegan remete sonoramente ao Phoenix Park, em Dublin, e à ave fênix – que revive das próprias cinzas – por consequência, reforça a referência a Finnegan´s Wake, lenda-canção do pedreiro que revive durante seu velório.
    Certa vez eu traduzi o título desse ‘joycebookshake’ pra
    ‘Novelório do finiciado’,
    mas hoje acho que eu proporia
    ‘Noviciado do velifinório’…

  3. 3 logorreia said at 5:06 pm on February 22nd, 2010:

    Pois então, Ivan. Eu li sobre isto semana passada, numa edição especial da Entre Livros (Clássicos #9).

    Gostei da solução “Noviciado do velifinório” porque parece carregar um senso de humor que — para mim — combina com Joyce.

    Por curiosidade, segue o parágrafo da revista:

    “O título já aponta sentidos contraditórios (ou complementares) nessa obra que inspira a totalidade e a inclusão: Finnegan’s wake, ao modo cifrado de Joyce, encapsula as idéias de início, de despertar (“wake”, em inglês) e de término, ou morte (fin, fine). Avançando um pouco, “egans” ecoa “again”, ou seja, “novamente”. Numa tradução bastante banal, “finn” desperta novamente (daí a solução brasileira, Finnicius Revém).”


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