Na próxima quarta celebramos o dia de Leopold Bloom. Curitiba não fica de fora. Até o momento, a programação que vi por aí é a seguinte:
BLOOMSDAY na reitoria: dia 16/junho, no anfiteatro 1100 do prédio Dom Pedro I (Rua General Carneiro, 460), à partir das 14h. Terá música, palestras, debates, leituras e gravuras ao vivo. A programação detalhada (via @vaguelypulse):14h: A canção Love’s Old Sweet Song executada por Caetano Galindo e Ana Torquato. 14h30: leitura de trechos 15h: Música M’appari executada por Caetano Galindo e Ana Torquato 15h30: leitura de trechos em mais de uma língua 16h: Música The Croppy Boy executada por Caetano Galindo, Ana Torquato e convidados e apresentação dos “Dublês de Dublin”! 16h30: Palestra do Prof. Ivan Justen sobre o cap. de Cila e Caribde 17h30: debates
Durante todo o evento haverá confecção de xilogravuras retratando partes do livro, pela aluna de Belas Artes Elisa Biassio Telles Bauer. Haverá também a venda de bottons do James Joyce e do evento.
Bloomsday na biblioteca!
Biblioteca Pública do Paraná: Leitura e debate de “Ulisses — James Joyce”, no Auditório Paul Garfunkel, 2º andar. (via Simultaneidades)
Livrarias Curitiba: em comemoração ao Bloomsday (16/06), onde é celebrado o romance Ulysses do escritor James Joyce, Ivan Justen Santana e William Crosué Teca realizam uma palestra sobre a literatura e as artes na obra de Joyce. A seguir, os palestrantes que formam a dupla Os dublês de Dublin, farão um pocket-show interpretando duas canções relacionadas a obra. 19h30, Livrarias Curitiba do Shopping Palladium.
Se você souber de mais algum evento, por favor, deixe um comentário.
No 12º capítulo de Quase a Mesma Coisa – Experiências de Tradução, Umberto Eco comenta a reelaboração radical: quando um tradutor toma tantas licenças ao traduzir um texto que o resultado final acaba sendo uma reelaboração e perde a característica de reversibilidade. Se revertermos a tradução no Google Translate, por exemplo, ficará difícil (ou impossível) perceber o texto original.
Neste capítulo ele mostra alguns trechos de Finnegan’s Wake traduzido para o italiano e para o francês pelo próprio James Joyce. O livro é famoso por conter o máximo do experimentalismo de Joyce. “Para passar a sensação do fluir do Rio Liffey, o livro contém, variadamente mascarados, cerca de oitocentos nomes de rios”.
O Rio Liffey, em Dublin
Ao questionar os critérios de tradução escolhidos por Joyce, Eco cita um trecho do livro:
Tell us in franca langua. And call a spate a spate. Did they never sharee you ebro at skol, you antiabecedarian? It’s just the same as if I was to go par examplum now in conservacy’s cause of telekinesis and proxenete you. For coxyt sake and is that what she is?
E comenta:
Spate remete a spade e to call a spade a spade corresponde ao nosso dire pane al pane. Mas spate remete também à idéia de rio (a spate of words é um rio de palavras). Sharee junta share e o rio Shari, ebro junta hebrew e o Ebro, skol junta school e o rio Skollis. Saltando outras referências, for coxyt sake traz à mente não apenas o rio infernal Cocito, como for God’s sake (e portanto uma invocação, no contexto, blasfema).
Antes de prosseguir com a análise das traduções, ele deixa uma nota de rodapé:
Como Joyce nunca dizia uma coisa só, for coxyt sake remete também ao Cox River, e um falante inglês sugeriu-me também uma alusão obscena, dado que for coxyt sake soa bastante parecido com for coxiti’s ache, onde coxitis é uma espécie de luxação do quadril e poderia, então, sugerir uma pain in the ass. Atenho-me à intuição do falante e não enfeitarei mais.
Simplesmente genial! Não consigo descrever de outra forma. Se eu conseguir ler Ulisses — e pretendo fazer isso antes do Bloomsday deste ano — pode ser que um dia eu crie coragem pra tentar me afogar no Finnegan’s Wake.
Fica também o vídeo-convite do pessoal de Ponta Grossa:
Update: Post atualizado porque a programação divulgada anteriormente (copiada do Orelha do Livro) estava errada. Este ano em Curitiba só teve mesmo a palestra da Luci Collin.
O Bloomsday é, de acordo com a Wikipedia, o único feriado do mundo dedicado a um livro (com exceção da Bíblia). O livro em questão é o famoso Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, e o nome do feriado vem do personagem principal deste livro, Leopold Bloom. A história contada nas quase mil páginas de Ulisses se passa toda em um único dia, 16 de junho de 1904. Por isso, na Irlanda e em outros lugares do mundo, o dia 16 de junho é celebrado pelos leitores de Joyce.
Atores celebrando o Bloomsday em frente ao pub Davy Byrnes (Dublin), citado no livro
Em Dublin a festa é grande. Tem leitura de trechos do livro pelas ruas da cidade, pessoas vestidas como os personagens e um passeio recriando o trajeto feito por Bloom ao longo da história. No Brasil as comemorações são mais tímidas, mas também convidativas. São Paulo costuma ter uma programação recheada para os fãs de Joyce e este ano não será diferente. Pesquisando na internet descobri que outra cidade brasileira que adora celebrar o dia de Bloom é Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde a data é comemorada desde 1994.
Em Curitiba a data é comemorada desde 2000. Em 2006 teve uma programação variada, que incluía leituras, shows e palestras. Ano passado (2008) as Livrarias Curitiba convidaram o professor Caetano Waldrigues Galindo, da UFPR, para realizar uma palestra sobre Ulisses e, neste ano, quem comanda o Bloomsday na capital paranaense é a escritora Luci Collin, com a palestra “Irlanda de Bloom, Irlanda hoje”. O evento acontecerá às 19:30h, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação.
Mais uma vez eu vou ao Bloomsday sem ter lido Ulisses. Para perceber a evolução do estilo literário de Joyce, estou seguindo a ordem de publicação dos três principais livros dele: Dubliners (1914), A Portrait of the Artist as a Young Man (1916) e Ulysses (1922). Dubliners (publicado no Brasil como Dublinenses, é composto por 15 contos, com destaque para Os mortos, que assim como Ulisses, teve adaptação para o cinema.
Um Retrato do Artista Quando Jovem (A Portrait of the Artist as a Young Man) é um romance autobiográfico onde Joyce recria o seu trajeto de criança, em um ambiente carregado de dogmas religiosos e políticos, até a fase adulta, onde se torna um artista de pensamento independente. Terminei de ler este livro este mês e o momento em que o jovem Stephen Dedalus, alterego de Joyce, decide abandonar suas amarras e deveres sociais é, no mínimo, inspirador:
I will not serve that in which I no longer believe, wether it call itself my home, my fatherland, or my church: and I will try to express myself in some mode of life or art as freely as I can and as wholly as I can, using for my defence the only arms I allow myself to use – silence, exile, and cunning.
Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.
Aproveitando a deixa, eu não recomendo ler esta tradução sem um guia de leitura por perto. Apesar de eu discordar do tradutor em várias escolhas (a começar pela remoção do artigo indefinido do título), o que mais me incomodou foi a ausência de notas explicativas ao longo do texto. Como comparação, o texto original publicado pela Wordsworth, que fui lendo em paralelo com a versão em português, tem 526 notas sobre o contexto político e cultural da Irlanda, além de esclarecimentos de citações e trechos em latim que aparecem na história.
E já que eu não vou conseguir ler Ulisses antes do próximo Bloomsday, estou aproveitando o momento para ler Contos Irlandeses do Início do Século XX, volume de contos organizado e traduzido por Luci Collin, a palestrante do Bloomsday curitibano deste ano. Mas se você não fizer questão de muito detalhe, pode ler Ulysses for Dummies, uma versão divertida do livro feita com GIFs animados.